O que seria do mundo sem as coisas que não existem?

Este texto é destinado a um(a) leitor(a) que, por ventura, se põe diante de questões que permeiam sua vida no momento contemporâneo, em termos objetivos mas, especialmente, subjetivos*

Frestas — Trienal das Artes é um projeto com foco nas artes visuais que em 2015, sua primeira edição, propôs uma reflexão a partir da interrogação “O que seria do mundo sem as coisas que não existem?” e que permeia este texto.


O inexistente insiste

Slavoj Žižek, filósofo, psicanalista e crítico cultural, pensa o inexistente como insistência, não como oposto de existência. Para ele, “o que não existe continua a insistir, lutando para passar a existir”. O inexistente persiste, é potência, insistência e alternativa.

Em ‘História do Vazio em Belo Horizonte’, o arquiteto e urbanista Carlos Teixeira, fundador do escritório Vazio S/A, propõe eleger o vazio ao invés do cheio, e discorre sobre formas de enxergar o vazio arquitetônico com otimismo, uma reserva de possibilidades.

As palafitas, tão presentes na paisagem das regiões de relevo acentuado, como é o caso do bairro Buritis, são espaços que descendem e habitam a mesma arquitetura da qual são excluídos. Alí, o inacabado se impõe, a ordem é incompleta e mutável. Como colocaria a arquiteta e urbanista Paola J. Berenstein, autora do livro Estética da Ginga, um movimento em potencial em direção a algo como a incerteza de futuro. O inacabado incita à exploração, à descoberta.

“Existe a beleza dos prédios vazios, da periferia sem forma, dos campos de futebol espremidos no meio de uma favela, e de tudo que neles pode acontecer. Mas existe também a beleza intrínseca à vontade de transformá-los, ainda que uma construção sobre eles seja precedida pela destruição da liberdade: por um desígnio (pelo design, pelo projeto)”, descreveu Carlos Teixeira, integrante hoje do projeto Outros Territórios.

Na arquitetura, a finitude da forma já é pré-definida e fixa nos projetos. Nas paisagens repetidas na cidade, resulta numa monocultura desoladora. Isso não acontece nos espaços inacabados, abertos ao acaso, que seguem uma lógica fragmentária ou rizomática, crescendo onde não se espera e instaurando a surpresa.

O que pretende o projeto Outros Territórios é, por meio de um concurso, justamente expandir o debate sobre vazios urbanos, e trazer para a vida uma gama de espaços esquecidos e inusitados. Um campo de estudo aberto para possibilidades latentes que despertem sensibilidades na cidade.


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Imagem1: reprodução Frestas — Trienal das Artes, 2015


Desler o mundo

O prefixo ‘des’ geralmente inverte o sentido de uma palavra, de forma que associá-lo a uma expressão diz respeito à uma ação de desconstrução. A ideia de ‘desleitura’, conceito criado pelo escritor Harold Bloom, quer sugerir uma desconstrução da leitura comum, promovendo uma leitura criativa e descompromissada com as formas convencionais de representação. O desleitor tem um olhar emancipado, capaz de produzir uma imagem que não é dada apenas por aquilo que olhamos, mas que inclui a imaginação e a interpretação subjetiva, que funda novos territórios e sentidos.

Também de acordo com a ideia, Friedrich Nietzche, filósofo alemão, acredita que a verdade pode ser inventada, já que é sempre uma interpretação. Interpretar é inventar e inventar é uma atividade poética.


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Imagem2: reprodução Frestas — Trienal das Artes, 2015

Arquiteturas indiferentes aos arquitetos

Viver a cidade exige conviver, constantemente, com a tensão entre as individualidades e coletivos, semelhanças e diferenças, subjetividades e objetividades. Nas perspectivas teleológicas clássicas, o mundo da utopia se constrói a partir da ideia de harmonia e eliminação das contradições entre os seres, não reconhecendo o conflito como um elemento inerente à realidade humana. No entanto, toda estrutura social é dominada por movimentos que tendem a conservar as práticas e instituições existentes, e outros que constroem novas formas de viver e de se relacionar com as instituições. A vida social é alimentada pela tensão entre eles de forma continuada e cotidiana.

A arquitetura, não indiferente a essa tensão, subsiste como uma profissão refém de arcaicas tipologias disciplinares, clientes conservadores, interesses e utopias privadas. Como ainda diria Lou ou Wellington Cançado, arquiteto urbanista e editor da revista Piseagrama, sobre o mundo que herdamos em Espaços Colaterais  —  uma monocultura desoladora de plantas e paisagens repetidas por toda cidade, produtos de um mercado em crise, ofertas imobiliárias já encalhadas, e que pateticamente não aprendemos a habitar.

Ao mesmo tempo, cotidianamente emergem, por meio de novos imaginários políticos, muitas outras arquiteturas possíveis. Em dimensões menores, mas escalas perfeitamente humanas. São ensaios não solicitados, redesenhos invisíveis aos olhos, e práticas colaterais que problematizam a conflituosa geografia contemporânea.


Arquitetura fora da arquitetura

Peter Pal Pelbart, filósofo conhecido por seus ensaios sobre a biopolítica na contemporaneidade, apresentou no Sesc Palladium ‘Das errâncias’ — uma fala sobre O Livro por Vir, de Maurice Blanchot (1907–2003), ensaísta francês e crítico de literatura:

Uma conhecida interpretação sobre a criação do mundo, proveniente da tradição cabalística, retomada por pensadores do séc. XVI, e intervinda por Blanchot, reza o seguinte: para que o Mundo pudesse vir à existência, o Ser infinito precisou abrir espaço, por um movimento de recuo e retração. Assim, o desafio divino estaria em apagar-se, em ausentar-se, no limite em desaparecer, como se a criação do mundo implicasse na evacuação de Deus.

O mesmo, Blanchot diz respeito ao autor: é preciso que ele se retire enquanto sujeito, enquanto eu, para que advenha a literatura própria e pura. Tal retraimento do eu, do sujeito, de Deus, ou do próprio pensamento, não é, portanto, omissão, nem derrota, mas puro dom.

Ciente de que o(a) (des)leitor(a), ao longo do texto, já tenha se proposto muitos saltos, sobre a mencionada retração criadora, eu gostaria de propor outros: Outros Territórios, uma chamada de ideias para intervenções urbanas nas palafitas do bairro Buritis, um convite à exploração do vazio e inacabado, e principalmente um estímulo à desleitura para os olhos ainda domesticados pela leitura comum – porque é o movimento constante que faz o fim parecer indeterminado.


*Por Sarah Matos, arquiteta e urbanista pela UFMG, coordenadora de comunicação do Programa CCBB e associada ao centro de arte e tecnologia JA.CA

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publicado em 1 de Novembro de 2018 às 20:33